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Segunda, 28 de Setembro de 2020

Mensagem do Presidente Fundação Portuguesa de Cardiologia - Dia Mundial do Coração 2020

As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte em Portugal, sendo responsáveis por mais de um terço da mortalidade total. Não podemos ignorar que antes da pandemia morriam cerca de 100 pessoas por dia, devido a patologia cardiovascular. Nestes primeiros seis meses de pandemia esse número ainda é superior.

Segundo os números oficiais, até ao fim de agosto morreram 1822 pessoas de covid-19 e observou-se um excesso de 4445 mortes por outras doenças, acima da média dos últimos 5 anos. Uma grande parte deste número elevado de óbitos a mais foi causada por doenças com elevada letalidade, tais como, o enfarte do miocárdio e o AVC, que são parcialmente evitáveis através do controlo dos fatores de risco. Por outro lado a luta contra o cancro, a segunda causa de morte em Portugal, depende essencialmente do diagnóstico precoce para ter sucesso, o que com consultas e exames adiados ficou sem dúvida comprometido.

É reconhecido que uma das grandes conquistas do século XX foi o aumento espetacular da esperança de vida. Refira-se que esta, em Portugal, cresceu cerca de 30 anos nos últimos 50 anos do século XX e mesmo nas duas primeiras décadas deste novo século, continua a aumentar. Verifica-se que, em média, durante os últimos oitenta anos, a esperança de vida aumentou cerca de dois a três anos por cada década. Lembramos que no início do século XX a esperança de vida era de 47 anos, e atualmente ultrapassa os 79 para os homens e os 84 para as mulheres.

Este aumento da esperança de vida da população portuguesa começou por ser devido essencialmente à redução das doenças infeciosas, graças aos progressos da saúde pública e da medicina clinica, nomeadamente à descoberta dos antibióticos. Nas últimas décadas, esse aumento da esperança de vida está a dever-se sobretudo aos progressos da cardiologia, que consegue evitar, por exemplo, grande número de enfartes do miocárdio e AVCs, através do controlo dos fatores de risco, como a pressão arterial, o colesterol e a diabetes.

Muitos doentes com problemas graves de saúde, em grande parte por medo de contágio por Covid-19 e pelas ordens para "ficar em casa”, evitaram ou dirigiram-se só em fases tardias das suas doenças às unidades de saúde e aos hospitais, o que contribuiu seguramente para o aumento da mortalidade global, observada não só em Portugal, mas também noutros países. É um facto que durante estes primeiros meses de pandemia, a procura das urgências e das consultas médicas, como tem sido largamente noticiado, diminuiu de forma acentuadíssima. Muitas destas mortes podiam ter sido evitadas com a instituição, no momento devido, de cuidados médicos preventivos e especializados.

No Dia Mundial do Coração chamamos a atenção para que a inegável gravidade da pandemia Covid-19, não deve obscurecer outras pandemias, como a das doenças cardiovasculares, que devido aos progressos da medicina, são hoje em dia doenças em grande parte evitáveis. Para agravar a atual situação cardiovascular, é bem conhecido que o Sars-Cov-2 pode causar doença vascular, provocada pela resposta imunitária com libertação de citoquinas inflamatórias. Em consequência, os doentes podem vir a sofrer enfartes do miocárdio, miocardites que eventualmente evoluem para insuficiência cardíaca e até causar morte súbita, AVCs e, claro, também doenças de outros órgãos.

A adoção de medidas de estilo de vida saudável e o controlo dos fatores de risco têm um efeito duplo, ao contribuir não só para reduzir as doenças cardiovasculares, como também para ajudar na luta contra a Covid-19. Os doentes idosos com fatores de risco controlados (hipertensão, obesidade e diabetes) têm, não só menor risco de sofrer de complicações da Covid-19, como de morrer de doença cardiovascular.

Infelizmente continua a verificar-se uma baixa procura de apoio médico, pelo que se torna necessário tomar medidas, nomeadamente desenvolver campanhas que esclareçam a população sobre a necessidade de continuar a prevenir e controlar as doenças cardiovasculares, que são a pandemia que mais mata em Portugal. Não é demais insistir que, no caso de se contrair a infeção, estar o mais saudável e controlado possível da doença cardiovascular, ajuda a resistir melhor ao vírus. Para isso o doente deve continuar a tomar a medicação cardiovascular e visitar o médico com a mesma regularidade que fazia antes da pandemia viral surgir.

Para terminar, lembramos que, pelo facto de haver uma pandemia de CoVid-19, não vão deixar de continuar a ocorrer pandemias de enfarte do miocárdio, AVC e insuficiência cardíaca, que podem e devem ser mitigadas pela prevenção e controlo dos fatores de risco.

Prof. Doutor Manuel Carrageta

Presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia